quinta-feira, 24 de junho de 2010

Epílogo — Um começo pelo fim.

"Ele pegou a vida com as mãos e sorriu ao ver seu sonho caminhar a estrada, sozinho, com o amor ao mundo sendo a única coisa a lhe proteger. E a palavra, sua única magia."
T. Grings.

Seus últimos passos eram mais uma vez desenhados na história. Os ecos cortavam os corredores em duas partes como um ceifar de vidas. A primeira parte era um galopar simples de criança a atravessar todo o castelo com um vôo de seu fôlego cheio de palavras. O segundo era rude, com o torpor de mais de cem pés a rufar suas armaduras no piso, olhos cheios de sangue a querer cortar as fibras do coração daquele primeiro eco. Todas as palavras e confusões descreviam aquele pequeno eco que deveria se chamar Grings, Thomas Grings perseguido por uma legião de mercenários. Não fosse a iminência do momento de perder a consciência, o bom humor e um pouco da última vida que lhe restava. Ele poderia fugir sobre puxões de cortinas e solavancos por corredores desconhecidos e amontoados de meia noite.

Cumpria aquilo com seus cabelos ondulados que riam na corrida de mais uma morte e ele. Com o olhar afetado de adrenalina estocava mais uma batida em seu relógio adormecido. —Anda logo! Vamos! Vamos! Mais uma batida e te dou o resto do mês em folga... Vamos!—E brecou a se ver cercado de cimitarras ao seu pescoço. Segurou o relógio de corda firmemente ao alto da cabeça e estudou aos arredores. Janela. Nada feito, queda alta e incrivelmente desconfortável para um relógio preguiçoso se houvesse um lago ali embaixo. Certo, quem sabe aquela escada? Não. Guardas são estúpidos e descer rolando os degraus pode não ser tão divertido para um pescoço mal humorado. Ok confere. Emboscada surpresa seria a melhor pedida para alguém como Thomas que tem seu dom em... BLUMP!

Jogou seu corpo contra a porta lateral da parede. Sorte grande, ela estava aberta. Escura como o silêncio que observa o desenrolar final de uma trama. Os passos do pequeno Thomas se firmaram diante do ar competente do que viria a seguir. Eram olhos realmente capazes que caminhavam até ele, vermelhos como rubis feitos nas dobras do sol. –Sem prorrogação dessa vez, Senhor Thomas. —E então surgiu, com seu ar fatal e não sem menos imponência por isso, Beethoven. Realmente, fim da linha. Era como encontrar o bispo de um Xeque-Mate. E então... O olhar distanciou novamente e a frase soou no ar mais uma vez, só que de forma lenta. “Sem prorrogação...” Seu corpo sendo puxado pelo umbigo de volta aos corredores.

Thomas olhou seu relógio. —Isso! Anti-horário!— Seu coração começou a alçar no peito como uma bomba em empuxo. Batia cada vez mais forte em sua taquicardia. Ele fechou os olhos tentando controlar o compasso no peito e em poucos segundos a realidade tremeluzia na sua frente. Um coração que cobria a velocidade da luz, nada mal, não? E era exatamente assim, saber que seu coração pode atravessar os tempos era uma coisa boa, mas quando o próprio Arquiteto quer pegar o Tempo de volta de suas mãos, não é nada bom.

E que comece a saga semanal.

“A responsabilidade de amar é a espada de todo sentimento que suas costas podem carregar. Nem sempre a dor alcança o esclarecimento da alma. E nem sempre a fé comporta todos os ares de um só coração.”
D. Abele.